A aula de balé na qual o objetivo não são piruetas e sim continuar na escola

 (Cortesia de Luisa Dorr / Malala Fund)

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No Complexo do Alemão, uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, Tuany Nascimento dá aulas de balé de graça para incentivar meninas a seguirem suas pretensões.

A instrutora brasileira de balé de 24 anos, Tuany Nascimento, observa suas alunas risonhas — Paloma (11), Ana Carolina (12), Karine (12) e Raissa (13). As quatro meninas não conseguem parar de cochichar e dar risada. Lançando um olhar profundo até elas, Tuany joga os ombros para trás e se endireita. O efeito é imediato. O falatório cessa e as pupilas de Tuany seguem os passos dela com respeito.

Paloma, Ana Carolina, Karine e Raissa são alunas da aula semanal de balé realizada no Complexo do Alemão, uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro. Em uma comunidade em que ninguém espera que as meninas tenham sucesso, a Tuany as incentivar a sonharem alto. “Mais do que ensinar balé, estou ensinando as meninas a se respeitarem e se amarem, e que podem ter o futuro que quiserem,” diz Tuany.

O seu projeto começou há seis anos. Aos 18, Tuany era velha demais para dançar profissionalmente e precisou arrumar um emprego em um escritório local para sustentar a sua família. Relutando deixar a sua paixão de lado, ela continuou a praticar balé em um pequeno ponto entre dois prédios.

 (Cortesia de Luisa Dorr / Malala Fund)

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No Complexo do Alemão onde tiroteios são frequentes, é raro ver alguém fazendo algo nas fora de casa por diversão. Não demorou muito até que Tuany começasse a chamar atenção. Duas meninas pediram aulas a ela, depois três e quatro. A Tuany concordou e mais tarde naquele mesmo ano deu ao projeto um nome formal, Na Ponta dos Pés.

As aulas são gratuitas para meninas de 4 a 17 anos de idade, contanto que mostrem um boletim para comprovar que estão na escola e que têm boas notas. “A educação é o primeiro passo. Se todos na favela conseguissem estudo, desejariam fazer outras coisas com as suas vidas,” diz Tuany.

Frequentar a escola não é fácil para as meninas que moram nas favelas — muitas comunidades são dominadas por traficantes de drogas e permanecem fora do controle do governo. “Podemos deixar de ir à escola por uma semana de cada vez por causa dos tiroteios,” explica Paloma. Quando isso acontece, ela fica triste e com medo. A Paloma quer viver em um lugar que seja tranquilo, onde tenha liberdade para fazer o que gosta — como cantar ou praticar balé.

 (Cortesia de Luisa Dorr / Malala Fund)

(Cortesia de Luisa Dorr / Malala Fund)

No Brasil, mais de 1,5 milhões de meninas estão sem estudar devido a pobreza, racismo e violência. Além disso, meninas indígenas e afro-brasileiras são as que mais perdem — apenas 30% das crianças afro-brasileiras terminam o primeiro ciclo do ensino secundário comparado a 70% das crianças brancas.

A Tuany está superando as expectativas. No momento ela está se formando em ciências físicas na universidade. Ela sempre lembra as suas alunas da importância de continuar estudando. Ao serem indagadas sobre qual o conselho mais importante que ganharam da Tuany, as meninas concordaram de forma unânime que foi “estudar muito”.

Desde que a Tuany começou o Na Ponta dos Pés, já orientou mais de 200 meninas. A Tuany pode ser rígida com as meninas, porém só porque ela sabe que todas as meninas são capazes de conquistar muito mais do que qualquer um espera delas. “Todos veem [as meninas] sem futuro,” diz Tuany com relação ao preconceito que existe em todo o país. “Antes do balé essas meninas estavam apenas sobrevivendo.” Com sapatilhas de ponta, batom de brilho e o incentivo de Tuany, elas agora estão fazendo muito mais que isso.

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ABOUT THE AUTHOR

McKinley Tretler is communications manager at Malala Fund. She’s on the hunt for the perfect Oreo milkshake and to befriend Mindy Kaling.